Quem ganha e quem perde com o dólar recorde?

A disparada do dólar no Brasil nas últimas semanas vem superando até mesmo as previsões mais ousadas. Nesta terça-feira (22), a moeda fechou a 4,05 reais, a maior cotação da história do real. A alta provoca dor de cabeça em muitos, mas também é vista como oportunidade para alguns setores da economia brasileira.
"A alta é péssima para fábricas que dependem muito de insumos importados, varejistas que importam sua mercadoria e empresas e pessoas que têm dívidas em dólar. Isso afeta desde quem viajou para fora e usou o cartão de crédito até a Petrobras, que tem o grosso das dívidas em dólar", afirma Julio Hegedus, economista-chefe da consultoria Lopes Filho & Associados.
Por outro lado, o dólar alto beneficia empresas voltadas à exportação. "Setores como o de celulose e de mineração já estão ganhando muito. E investidores estrangeiros podem achar interessante fazer aquisições de empresas brasileiras por causa da perda do valor delas frente ao dólar", afirma Hegedus.
Com a alta da moeda, alguns setores da indústria também recebem um pouco de alívio no sufoco provocado pela desaceleração econômica do mercado interno. O volume de exportações ainda não reflete a vantagem do novo câmbio, mas o índice de rentabilidade das vendas externas de vários setores já apresentou uma melhora sensível. Graças à alta do dólar, as empresas podem baixar seus preços e vender mais para fora.
"O efeito no volume exportado é mais demorado, porque muitas empresas precisam se preparar e reorganizar a produção para o mercado externo. É mais fácil sentir o impacto na rentabilidade. As exportações industriais ainda continuam baixas, mas os ganhos estão maiores", afirma a economista Daiane dos Santos, da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex).
Dos 29 setores produtivos voltados à exportação analisados pela Funcex, 23 registraram aumento na rentabilidade entre janeiro e agosto deste ano. No setor de semifaturados (ferro fundido, celulose, ligas de alumínio, couros etc.), por exemplo, o índice teve um aumento de rentabilidade de 7,3%.
"A alta do dólar traz um ganho de competitividade para diversos setores brasileiros. O câmbio permite que os produtores e fabricantes negociem valores melhores e traz algum alívio", afirma Santos.
Manufaturados, varejo e turismo
Apesar do setor de manufaturados ainda apresentar índices gerais de rentabilidade negativos, algumas indústrias começam a reagir com a alta do dólar. A indústria automobilística, que por um lado viu uma queda de 21,4% na venda de veículos no mercado interno entre janeiro e agosto, também registrou uma alta 10,5% nas exportações em comparação com o mesmo período do ano passado.

Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), foram vendidos 260 mil veículos ao exterior, contra 235,5 mil unidades nos oito primeiros meses de 2014.
Algumas cidades que têm a economia fortemente voltada à exportação também já experimentam vantagens da alta do dólar. São José dos Campos, que produz principalmente aviões e equipamentos aeronáuticos, exportou um total de 286,4 milhões de dólares em agosto deste ano – um aumento de 24,12% em relação ao mesmo mês de 2014, de acordo com o Ministério de Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio.
E não somente empresas que focam no mercado externo podem ter vantagens com a alta do dólar. Entre os varejistas, a retração da economia brasileira provocou demissões e queda nas vendas. Entretanto, existem casos de redes que viram seus lucros aumentarem por influência da alta do dólar, que tornou algumas empresas mais competitivas em relação a grandes redes que baseiam a maior parte de suas vendas na importação. As Lojas Renner são um exemplo, tendo anunciado recentemente um aumento de 33,5% no lucro do segundo trimestre em comparação ao mesmo período de 2014.
A alta do dólar também está fazendo com que os turistas brasileiros diminuam a procura por destinos fora do país. Em agosto, as despesas dos turistas brasileiros em viagens ao exterior caíram 46,3% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados do Banco Central divulgados nesta terça-feira.
O setor hoteleiro vê a queda como uma oportunidade de estimular o turismo interno. Alguns números já mostram que as viagens internas estão ganhando fôlego. De acordo com dados da operadora CVC, a maior do país, os pacotes nacionais representaram 60% do volume de vendas no primeiro semestre de 2014. Nos primeiros meses de 2015, essa proporção subiu para 65%, contra 35% dos pacotes internacionais.
Soja
Entre os ganhadores mais evidentes da disparada do dólar estão os produtores de soja. Estimativas apontam que a próxima safra deve ser a maior da história do Brasil, alcançando entre 97,08 milhões e 100,88 milhões de toneladas, uma alta que pode chegar a 5,3% em relação à safra anterior, puxada, sobretudo, pela alta do dólar. O plantio do novo ciclo foi iniciado na semana passada, após o fim do vazio sanitário – período de ausência de plantas vivas nas lavouras para prevenir pragas.
"A alta do dólar injetou ânimo entre os agricultores. Apesar do aumento do preço dos insumos, que são na maior parte importados e que encareceram em 20%, o saldo é positivo", afirma o economista Camilo Motter, sócio-diretor da Granoeste Corretora de Cereais.
"A soja está cotada ao menor preço em seis anos no mercado internacional, mas a alta do dólar fez com que o preço interno dela saltasse. Há um ano, a saca de 60 quilos valia 9,38 dólares, com a moeda valendo 2,39 reais. Agora, apesar de a saca valer 8,70 dólares, o câmbio está a 4 reais. É um ganho de 30%", diz.
Graças ao aumento do dólar, os três principais Estados produtores – Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso – devem expandir a área plantada mesmo com os temores associados às incertezas sobre a economia da China, o principal comprador da soja brasileira.
No Paraná, a área plantada deve crescer 2% em relação à safra 2014/2015, passando para 5,08 milhões de hectares. No Mato Grosso e no Rio Grande do Sul, a expansão deve chegar a 2,06% e a 3,14%, respectivamente.
"Há muita agitação no setor. A soja brasileira ficou bem mais competitiva. Vai dar um ímpeto maior às exportações. O chinês deve dar preferência à soja brasileira, e não à americana", afirma Motter.
Reformas
Apesar da alta do dólar ter o poder de beneficiar alguns "ganhadores", o câmbio só tem o poder de aliviar um pouco a má situação da economia brasileira. De acordo com Santos, o ganho de competitividade de alguns setores é meramente artificial, e pode simplesmente evaporar com a queda da moeda.
"A alta ajuda vários setores, mas é exatamente um ganho de competitividade. O mercado brasileiro continua com vários problemas", afirma a economista. "Há um lado bom: a indústria e outros setores podem ganhar tempo para fazer investimentos e não perder essa nova rentabilidade. Podemos esperar que essa alta dure um bom tempo. Até lá, são necessárias reformas para aumentar a competitividade brasileira", conclui.

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